domingo, 12 de julho de 2026

Lavanda

Deixe que eu me abandone, assim tão calma e lentamente.
Entre o silêncio das flores secas, na fresta da porta aberta.
O repouso honroso do soldado desertor, absolvido de toda culpa.
Sobre o chão, junto às cartas não respondidas, ainda fechadas.
Iluminado pela luz monótona do abajur, artificialmente amarelada.
Isso é a paz? 

Não sinto frio, não quero voltar, não espero, a ânsia se foi.
Leve, como havia escrito outrora no caminho da estrada sem fim.
Um abrigo para um viajante cansado, um lar para um exilado.
Podia ouvir as chamas que queimavam agora na memória,
Já não há calor. Sem combustão, uma parada entre os ponteiros.
Isso é a paz?

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Terra

Fui arenosa, movediça,
Por entre dedos, caia.
Tão porosa quanto corrediça
que com o vento, partia.

Depois rochosa, abscissa,
Racionalmente, sabia
que, furiosa e também maciça,
com o tempo, cederia.

Então frondosa e alagadiça,
Me molhava com alegria.
Chuvosa a nuvem que enfeitiça
e assim, a planta cria.

Impiedosa e maciça,
Havia seca quando se despedia.
-Nuvem bondosa, faça sua justiça!
Pacientemente, te esperaria.

Eu, penosa e assustadiça,
seu cheiro ainda sentia.
-Ditosa que nenhuma gota desperdiça,
derrama em mim a magia!

Logo, saudosa, iça
o coração que ainda batia.
Antes argilosa e submissa,
misturada, novamente, eu escorria.

Poderosa a alquimia.
Por sua via misteriosa,
assim, ao seu modo,
generosa, a vida cria.